Brasil precisa de contrapartidas para receber grandes data centers, dizem pesquisadores
Especialistas alertam para impactos ambientais, consumo de energia e água, soberania digital e necessidade de participação da sociedade nos projetos de infraestrutura tecnológica
A expansão dos grandes data centers no Brasil precisa ser acompanhada de planejamento, transparência e regras que garantam benefícios para o país, além de mecanismos capazes de reduzir impactos ambientais e sociais. A avaliação foi apresentada por pesquisadores durante um debate realizado em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, como parte da programação da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
O debate reuniu especialistas que defenderam uma maior participação de universidades, governo e sociedade na definição das condições para instalação de grandes centros de processamento de dados no território brasileiro.
Para o professor Mauro Oliveira, do Instituto Federal do Ceará (IFCE), o Brasil precisa estabelecer claramente quais serão as contrapartidas exigidas das empresas interessadas em instalar data centers no país. Segundo ele, a chegada desses investimentos não deve ocorrer sem uma negociação que considere os interesses nacionais.
A preocupação está relacionada ao consumo elevado de recursos naturais e à infraestrutura necessária para manter os centros de processamento, especialmente aqueles destinados a aplicações de inteligência artificial.
Consumo de energia é um dos principais desafios
Entre os principais pontos levantados durante o debate está a demanda energética dos data centers. O professor Mauro Oliveira citou como exemplo um projeto de instalação de um grande centro de processamento de dados voltado à inteligência artificial no Ceará, cuja demanda estimada poderá chegar a cerca de 300 megawatts de potência.
O pesquisador defendeu que o país avalie cuidadosamente os impactos desses empreendimentos sobre o sistema elétrico e estabeleça políticas públicas capazes de garantir que os investimentos contribuam efetivamente para o desenvolvimento nacional.
Além da energia, a expansão dos data centers também envolve questões relacionadas ao consumo de água, ocupação territorial e infraestrutura tecnológica.
Para Oliveira, mecanismos permanentes de monitoramento, auditoria e transparência devem acompanhar os projetos. Ele também defendeu que a comunidade científica tenha participação mais efetiva nas discussões sobre as condições para implantação dessas estruturas.
Impactos ambientais e sociais entram no debate
O pesquisador Dan Levy, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destacou que os impactos dos data centers não se limitam ao consumo de energia e água.
Segundo ele, projetos dessa natureza também podem provocar poluição sonora, aumentar a pressão sobre recursos naturais, gerar conflitos territoriais e ampliar desigualdades sociais, especialmente quando comunidades vulneráveis estão próximas das áreas de implantação.
Na avaliação do especialista, a expansão da infraestrutura digital precisa caminhar junto com políticas de sustentabilidade ambiental e participação social.
A população diretamente afetada pelos empreendimentos, segundo Levy, deve participar das discussões e decisões sobre a instalação dos projetos, e não apenas lidar posteriormente com os impactos provocados pelas estruturas.
Soberania digital também preocupa especialistas
Outro ponto destacado no debate foi a soberania digital. A instalação de grandes data centers pode ampliar a capacidade tecnológica do Brasil, mas também exige atenção sobre quem controla os dados, a infraestrutura e os serviços associados a essas operações.
Os pesquisadores defenderam que o país aproveite a expansão da economia digital para fortalecer sua própria capacidade tecnológica e científica, evitando uma relação em que o Brasil forneça principalmente energia, água e território para sustentar infraestruturas controladas por grandes empresas internacionais.
O conceito de “colonialismo digital” foi citado como uma das preocupações relacionadas ao avanço desse modelo. A expressão é utilizada para descrever situações em que países em desenvolvimento fornecem recursos naturais e infraestrutura para sustentar sistemas tecnológicos de empresas e países mais ricos, sem necessariamente obter benefícios proporcionais.
Brasil precisa definir regras antes de ampliar investimentos
A discussão ocorre em um momento de crescimento da demanda global por infraestrutura para inteligência artificial, computação em nuvem e armazenamento de dados. Com o avanço dessas tecnologias, a necessidade de novos data centers tende a aumentar, ampliando também a disputa por energia, água e áreas adequadas para a instalação desses empreendimentos.
Para os especialistas, o Brasil tem potencial para atrair investimentos e desenvolver sua infraestrutura tecnológica, mas precisa estabelecer regras claras antes de ampliar a concessão de benefícios e incentivos.
Entre os pontos defendidos estão a definição de contrapartidas econômicas e sociais, transparência nos projetos, monitoramento ambiental, participação das comunidades afetadas, envolvimento das universidades e avaliação dos impactos sobre os recursos naturais.
A proposta não é impedir a chegada dos data centers ao país, mas garantir que os investimentos estejam associados a uma estratégia de desenvolvimento sustentável e de fortalecimento da capacidade tecnológica brasileira.
O debate realizado na SBPC reforçou, assim, a necessidade de conciliar a transformação digital com a transição ecológica. Para os pesquisadores, a expansão dos data centers deve ser planejada de forma que os benefícios econômicos e tecnológicos sejam compartilhados com a sociedade, enquanto os custos ambientais e sociais sejam devidamente avaliados e controlados.
Fonte: Agência Brasil e informações apresentadas durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).



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